sábado, 11 de julho de 2020

whose side are we on?

A depressão e a ansiedade costumam brigar pela atenção completa do meu cérebro há muitos anos. Não sei quem clama com e sem razão pelo trono, mas a batalha é dolorida porque se passa dentro de mim.

A ansiedade me deixa germofóbica, ou qualquer que seja o termo que te dá fobia de germes. Tudo é sujo. Eu encosto em tudo. Portanto, eu também sou suja. Cheia de poeira e sujeira: pele morta, ácaros, bactérias. E eu faço parte disso: sou uma coisa nojenta ambulante e faço parte de um todo sujo, porque eu também sou suja.

A depressão, por outro lado, me deixa hermética. Eu olho as coisas, eu as admiro, então tento tocar. Mas eu nunca encosto. É um esforço tremendo para tocar algo belo e quando toco, nada acontece. A minha composição impede o contato com qualquer superfície. Eu sou repelente. Eu expulso as coisas para longe de mim.

Multiplicados sejam os dias em que eu não estou tão anormal.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

depressão

é como se a sua sombra pudesse me engolir
me arrastar
me arrasar
levar pra fora
me abolir

é um feitiço
que eu desconheço
um vento forte
gélido
e morno
leve, pois ninguém vê
pesado, pois eu carrego
triste e indolente
secando a minha nascente

às vezes, anestesia
mais vezes, covardia
sem sal e amargo
me destrói sem embargo

engole meu eu
furta a minha cor
despedaça o meu coração
transforma tudo em breu
retira o meu valor
e embota a emoção

quem dera a vida fosse eletiva
já que a vida depressiva
é uma mazela
sem tinta e sem cor sobre a tela


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Uma adolescência tardia?


Não é de hoje que eu digo e nem é de hoje que eu tenho certeza de que minha vida é fora de época, fora do timing. Parece que eu tô sempre fora do meu tempo e essa talvez seja a única coisa constante pra mim.

Em todo caso, eu descobri a maconha aos 27 anos. Já tinha experimentado antes, mas a experiência tinha sido nula, sem graça. Hoje é praticamente uma realidade no meu ser humano.

Também comecei a beber tarde. Eu tinha mais de 21 anos quando comecei a, de fato, apreciar a bebida. O primeiro porre talvez tenha vindo ali pelos 22, sinceramente não recordo com exatidão.

Não vejo nada disso como errado. Na realidade, eu acho isso até positivo, porque apenas experimentei as coisas que quis no momento em que me senti realmente preparada pra isso.

Assim como fazer sexo. Minha primeira relação sexual aconteceu somente aos 18 anos, já era maior de idade e sabia exatamente o que eu queria. Apesar de já ter tido um relacionamento desde os 13/14 anos, só transei quando me senti confortável. E foi legal.

Do alto dos meus atuais 27 anos eu me sinto meio extraterrestre se a ideia for me comparar às idades em que outras pessoas fazem essas coisas que citei.

Só aos 27 anos que decidi assistir aos filmes das sagas Crepúsculo e Jogos Vorazes, mais uma vez extemporânea ao que praticamente todas as pessoas que conheço são. Não me arrependo.

Quando lançaram Crepúsculo e aquele show de horrores e ódio virulento que se seguiu, eu achei patético. Não entendia nada e achava horrível. Quanta soberba a minha! Quem era eu pra criticar algo que estava no coração de tantas meninas?

Respondo: ninguém. Absolutamente ninguém.

Hoje percebo que meu amadurecimento pra ver algo como Crepúsculo só veio agora, com 27 anos. Antes eu estava mais próxima desses nerds punheteiros e chatos que reclamam de diversidade racial, sexual e social nos filmes de heróis, que não entendem que toda obra é política, até mesmo quando o assunto não aborda política, a obra está sim assumindo uma posição política - já que não grita com os sofridos, está tomando o partido daqueles que oprimem.

E Jogos Vorazes? Como eu poderia começar a falar sobre essa verdadeira masterpiece? É, sinceramente, uma das melhores coisas que eu já tive o prazer de assistir e ler. É político, é rebelde, é feminista, é anticapitalista, é revolucionário. A Katniss é um ícone - ela é forte, ela é guerreira, ela não se entrega e ela tem plena consciência de que esperam dela uma feminilidade e submissão que ela não está nem um pouquinho disposta a entregar. Ela sabe disso e ela continua. Ela até joga o jogo deles, mas ela faz isso por sobrevivência e porque há algo maior do que ela a ser protegido.

Enfim. O que esse devaneio quer dizer? Quero só dizer que não há atrasos e não há tempo perdido, desde que estejamos vivos. Se estamos vivos, ainda há tempo para fazer as coisas, viver um pouco e curtir. E tá tudo bem.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O dia de hoje ficará eternamente marcado como o dia em que eu recebi a ligação da OAB Cachoeirinha sobre a solenidade de entrega da minha carteira da OAB. E que fique registrado que eu estava completamente chapada, no momento da ligação. Fuck yeah. 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

O fim de uma era?

Ia fazer dois anos de um hiatus não planejado aqui. Por alguma razão, eu lembrei da existência desse blog e decidi postar qualquer coisa. Outro dia me peguei com uma crise existencial estruturada em formato de post e ia escrever aqui, mas acabei ficando apenas em choque, sendo a crise inútil para fins de escrever no blog.

Dois anos atrás eu estava dolorida e triste e queria sumir. Hoje, pouco mudou. Terminei minha pós-graduação, agora só falta apresentar o maldito TCC e serei especialista em Ciências Criminais. Finalmente consegui passar na prova da OAB, isso estava me consumindo havia séculos. Agora é esperar toda a burocracia pra pegar a carteira e finalmente poder procurar emprego.

Em casa, sem trabalhar, há mais de um ano, sinto que estou definhando. Os estudos para o exame da ordem levaram de mim o pouco de saúde mental que ainda restava. Eu sinto que meu corpo está derretendo, escorrendo, caindo, desmoronando. Minha mente não é um local, minha mente não é nada - é só bagunça e dor. A dor é tanta que eu não consigo entender se dói a pele ou se dói a cabeça, ou se dói todo o meu corpo, ou, talvez, eu esteja equivocada e tudo o que acontece comigo é dolorido e não tem cura. Não sei, acho que nunca saberei.

Nos últimos dias a depressão tem piorado e tudo o que penso é em sumir, desaparecer. Eu organizo meus contatos e catalogo minhas mensagens, com a esperança de que quem encontrar minhas redes sociais não se chateie muito, quando eu morrer. Eu arrumo minhas coisas como se eu fosse embora, mas não embora daqui, e sim, embora de mim. Eu organizo tudo pra não deixar trabalho pra ninguém. Tudo o que sinto é que sou um peso. Tudo o que eu queria era sumir. Só me falta coragem pra fazer a coisa certa e apagar a minha existência da face da Terra. Quando foi que me tornei tão covarde?

Eu não sirvo nem pra me matar.






Obs.: o título "o fim de uma era?" corresponde à minha insatisfação pessoal de perceber que me tornei o que eu mais temia - uma depressiva disfuncional. Antes, eu conseguia ter depressão e fazer as coisas. Agora, eu me sinto tão danificada que não consigo sequer levantar da cama. Eu não sirvo pra mais nada. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Doadora de órgãos e tecidos

E essa é a parte da minha carteira de estagiária da OAB que mais me emociona - onde menciona que, SIM, sou doadora de órgãos e tecidos.

Não mais. Nunca mais.

De pé, eu sinto o veneno se acumular na minha corrente sanguínea. A substância tóxica se amontoa na base do meu corpo e pesa, de maneira que toda célula, toda molécula, todo átomo e absolutamente todo o meu ser anseia pelo repouso, pela inércia, pelo conforto da cama. Eu quero deitar e dormir.

Eu quero deitar, dormir e ejetar toda a toxicidade existente na minha pele, nos meus órgãos, no ar que eu respiro. Então, eu finalmente deito. Não é uma grande surpresa, parece que eu já sabia que a sensação do meu corpo ser um invólucro de veneno não ia passar. Mas eu precisava deitar e, uma vez deitada, eu sinto toda aquela substância nociva se espalhando, crescendo, multiplicando, fermentando. Eu sou tóxica. Eu não mereço viver. Toda dor que sinto é um lembrete, um aviso, de que eu estou aqui apenas para o sofrimento, recebê-lo e causá-lo.

E é por isso que eu gostaria de sumir. Desaparecer. Fundir meu corpo às paredes. Cair no esquecimento, aos poucos, porque sei que, por mais nociva que eu seja, ainda assim há pessoas que gostam de mim. E eu não queria causar mais nenhum tipo de sofrimento. Não mais. Nunca mais.