segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Reconhecimentos aleatórios

Decidi que seria uma boa ideia iniciar os posts de 2024, mesmo que no fim do ano, com algumas coisas que me deixam feliz, pois comprovam que estou fazendo um bom trabalho - algo que sempre foi meu objetivo, independentemente da profissão ou ramo de atuação que eu escolhesse.

Não gosto da ideia de serviço mal prestado, prestado de qualquer jeito, sem que eu tenha dado o meu melhor pra que ele seja realizado. Simplesmente, é incompatível com a minha conduta.

Hoje mesmo ainda comentei com meu colega do escritório que o meu pior chefe sempre foi a minha própria mente, pois é ela que não me deixa descansar à noite pensando em tudo o que há pra fazer, é ela quem fica sempre insistindo pra eu pesquisar e procurar mais que, certamente, encontrarei argumentos e embasamentos melhores para defender os interesses dos meus clientes.

Espero um dia aprender a ser uma chefe melhor pra mim mesma, não deixando o trabalho e a respectiva excelência deste, de lado; afinal o objetivo é continuar trabalhando com dedicação e afinco, mas ao mesmo tempo conseguindo jão arrancar os cabelos e nem vomitar de ansiedade por conta disso.

Então decidi colocar algumas palavras carinhosas de clientes, pra que eu me lembre que, apesar de trabalhar com o mesmo afinco e garra em todos os processos, algumas pessas simplesmente sentem e dispensam um pouco de seu tempo para tecer elogios ao que eu faço. E isso é muito fofo, penso que seria importante registrar algumas dessas manifestações.




 

Sei que faço o que gosto e isso é completamente desvinculado do que as pessoas pensam a respeito. É um trabalho como outro qualquer, é uma maneira de ganhar a vida como todas as outras são. Faço isso porque gosto e, se sou boa nisso, é porque me dedico. Entretanto, não deixa de ser uma grata surpresa quando um cliente elogia algo, justamente porque faço com meu coração, com toda a minha dedicação e comprometida com meus ideias de justiça e solidariedade.

Então, é, pode ser que novos prints anônimos cheguem até aqui, conforme eu vá lembrando ou, até mesmo, recebendo. Nunca se sabe quando alguém vai expressar essas coisas né?!

sábado, 25 de fevereiro de 2023

O devir feminista nos games

Eu não achava que conseguiria.

Minha maior sensação era de que, a qualquer momento, minha saúde mental se deterioraria e o cansaço fosse fazer tudo desmoronar. É claro que eu entrei nessa por livre e espontânea vontade; tomei essa decisão quando me senti levemente confiante de que eu poderia fazer isso. Mas a verdade é que, mesmo assim, mesmo tendo certeza, é difícil, é puxado, é desafiador. Colocar-se na condição de aprendiz pode parecer fácil - afinal eu fiz isso a minha vida inteira -, mas, de fato, os obstáculos são enormes, principalmente os internos, em que a gente internaliza e reproduz, incessantemente, que talvez não seja capaz de levar à cabo a missão autoatribuída.

Hoje, mais de dois meses após a defesa da minha dissertação, eu senti que conseguiria falar a respeito. Entretanto, faço isso na companhia de lágrimas copiosas nos olhos, um frio na barriga e muito, mas muito esforço pra colocar em palavras como foi a minha experiência.

Passei por muitos perrengues nessa jornada de dois anos e, exatamente quando entrava na reta final (início do segundo ano) eu tive a minha primeira crise de pânico. O contexto não é relevante e, como se sabe, as perturbações de cunho psicológico acontecem em razão de diversos fatores, nada é, isoladamente, responsável por isso. A gente não pode evitar um abismo depressivo, um surto de ansiedade, uma crise de pânico. Nada é evitável e não há culpados, são apenas fatos e, por isso, a gente precisa correr atrás dos gatilhos e buscar auxílio pra trabalhar essas questões. 

Eu tenho sorte. Tenho também uma imensa rede de apoio (que eu nunca canso de agradecer e louvar) porque, sem ela, eu não teria conseguido sair do lugar e o medo paralisante teria feito cessar todas as minhas energias vitais.

Não abaixei a cabeça. Bom, não baixei no sentido figurado; já que, no sentido literal, eu abaixei a cabeça e estudei, chorei, pedi ajuda, cuidei de mim e dos meus. Abaixar a cabeça e olhar pra dentro, afinal, não é um mistério insolúvel.

Mantive meu espírito nutrido. Surtei sozinha, surtei com outras pessoas, outras pessoas surtaram comigo. Segui trabalhando, saindo com meus amigos, tentando jogar videogame, vendo algum filme, segui a minha vida com a consciência de que toda angústia estava dentro de mim e, portanto, somente eu seria capaz de lidar com ela.

É assustador, né? É assustador quando dizem que nosso futuro depende de nós mesmos.

No segundo ano do mestrado as coisas se complicaram um pouco não só pelas crises de pânico - aqueles buracos negros que estão por aí, esperando que a gente seja sugado por eles sem aviso prévio -, mas também pela necessidade de me deslocar até à Universidade. Era bom quando estava lá, mas até chegar, era um sofrimento. Eu me tornei muito mais reclusa durante a pandemia; sair de casa nunca foi uma grande maravilha pra mim, mas nesse período tenebroso de nossas vidas, as coisas pioraram bastante. Eu carregava na mochila um estoque de guerra: antieméticos, calmantes, analgésicos e, claro, um EPI antirruídos. Sim, até o som da rua, da vida passando, me causava muita dor e sofrimento; o período de reclusão me deixou muito mais sensível a estímulos sensoriais, especialmente na audição, no olfato, no tato e na visão.

Chegando ao fim do ano, beirando a defesa propriamente dita, eu fui ao médico fazer exames de rotina e a ginecologista se preocupou com um nódulo no seio. Pediu exames de imagem e, com o resultado, pediu biópsia. Eu entrei em desespero com a ideia de alguém me furando com uma "agulha grossa" (palavras da médica, não minhas). Só isso já me perturbava. Então fui atrás pra compreender o que estava acontecendo e, aparentemente, estavam investigando uma provável situação de câncer estágio IV. Eu nem sabia o que era isso. Nem sabia como essa escala funcionava; até descobrir que estava no gabarito: nota máxima! "Parabéns, você tem apenas alguns meses de vida!"

Fiz de conta que não era comigo. Magicamentre entrei numa bolha - um círculo mágico? - e deixei a vida no piloto automático. A essa altura eu já não me alimentava direito e, se não fosse pela descoberta do whey, provavelmente não conseguiria comer nada sólido mesmo. A vida foi seguindo, eu perdida em pensamentos, tentando trabalhar, estudar e manutenir os meus laços afetivos tanto quanto era possível.

Nesse momento difícil eu contei com a ajuda dos amigos próximos, dos colegas de trabalho, da minha família. Eu não sei onde estaria se não os tivesse comigo no olho do furacão.

Apenas alguns dias antes da banca (em 19/12/22), eu me dirigi à clínica pra fazer a bendita biópsia com "agulha grossa". Eu não falava, eu nem tremia; eu simplesmente aceitei que era aquilo que tinha pro momento e que eu deveria encarar a vida como sempre encarei: de frente, de cabeça erguida. E fui.

Lá chegando, a notícia de que não havia absolutamente nada de errado e nenhum indício de nódulos desceu despercebida, aninhando-se no fundo do meu estômago. Fiquei confusa, não entendi quase nada, mas saí da sala da biópsia meio boba, meio besta, finalmente feliz por não ter câncer.

Ali eu consegui respirar um pouquinho.

No dia da minha banca - já sem qualquer sombra de câncer -, contei com meus amigos Fernanda Danquimaia e João Ribas pra me levar até à Universidade. Foi divertido e, apesar de toda ansiedade se avolumando na boca do estômago, eu consegui cumprir a tarefa que eu mesma me propus: apresentei meus achados, defendi a minha pesquisa e as minhas ideias, tudo isso em meio a vários amigos e familiares que, gentilmente, cederam um pouquinho do seu tempo pra me prestigiar. Eu não sabia o resultado, nem tinha como saber; mas eu já sentia que a minha missão estava cumprida. Eu me propus e eu fiz. Já estava orgulhosa de mim independentemente da nota.

A aprovação veio e foi maravilhoso. É engraçado como a gente se prepara tanto pro fracasso que, quando ocorrem vitórias, a gente fica: "???", sem entender nada. Parece que as derrotas são sempre tão esperadas que esquecemos de nos preparar para os sucessos. E são muitos.


"Se vocês não atacassem minha dissertação, eu não precisaria defendê-la"

Tenho muito orgulho da minha caminhada e de mim mesma. Tenho orgulho de nascer onde nasci, de ter estudado onde estudei, de pertencer à família que pertenço. Meus pais são minha base, meu fundamento primordial; eles são a família quu me escolheu. E, hoje, não caibo em mim de tanto orgulho das famílias que eu escolhi: a família de amigos, a família de colegas de trabalho, a família de acadêmicos, a família dos estudos, enfim. As afiliações que tenho não são por acaso e eu farei de tudo para lembrar-lhes disso todos os dias.

É curioso como, apesar de eu ter escolhido e amar o que eu estudo, ainda assim as provações são gigantescas. Mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses dois anos de mestrado, é que eu não estou sozinha. Nunca. De verdade: eu nunca estou sozinha. Os amigos que fiz e as alianças que forjei sempre me acompanharão. O meu espírito é nutrido por essas lembranças, por essas concretizações, por breves certezas e a segurança de que as dúvidas são necessárias; antes, são obrigatórias. Ter dúvida é o estado natural das coisas e, se um dia alguém vier a saber de tudo, dificilmente haverá graça na vida. Não que a ignorância seja o objetivo, mas é um estado contemplativo que dura o tempo necessário até se desfazer pela clareza. E aí reside a beleza do viver: tornar-se, transmutar-se, evoluir-se, habitar nas fronteiras (ó eu trazendo trechos da minha dissertação pra cá).

Enfim, depois desse nada breve desabafo, tudo o que posso fazer é agradecer às pessoas envolvidas nessa caminhada: minha família, meus amigos, meus professores e, em especial, meu orientador, Prof Moysés Pinto Neto, meus colegas de trabalho e do mestrado, meus terapêutas, meus padrinhos e meus guias espirituais. Sem essas almas caridosas e compreensivas, que me incentivaram a continuar e me acolheram nos momentos bons e ruins, tornando meus dias mais claros e as noites densas mais suportáveis, nada disso seria possível.

E, por fim, gostaria de agradecer a mim mesma, por permitir que isso tudo fosse possível; aprendendo a ser flexível pra não quebrar na ventania e ser firme quando tudo é incerto.

... "Eu não achava que conseguiria", mas a verdade é que eu consegui PRA CARALHO e não vejo a hora de voltar pro Doutorado!

Gratidão!




PS.: Quando criança, lembro de um texto muito bacana então atribuído à Shakespeare que, até hoje, não sei qual a autoria, mas é uma mensagem que vez ou outra retorna à lembrança e nos últimos anos eu tenho pensado muito sobre:

"Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás, portanto, plante seu jardim e decore sua alma ao invés de esperar que alguém lhe traga flores, e você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

Descobre que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida! Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

not afraid, not anymore

 minha cabeça tá a milhão e o meu coração, em frangalhos.


dia 14/11/2020 comunguei pela primeira vez. participei da cerimônia sagrada da ayahuasca e eu não posso descrever em palavras as coisas que vi, vivi e senti.


me sinto fortalecida, aberta, em sintonia, sabe-se lá com o que - mas é assim que eu me sinto.


hoje percebo como as decisões tomadas "de mim pra mim" são as decisões mais importantes e difíceis que eu poderia tomar e eu me sinto grata por estar, apesar de tudo, firme e forte nos meus propósitos.


dia 03/12/2020 será a minha prova para o mestrado acadêmico em educação. eu sinceramente não sei o que vai acontecer ou como vai ser. não sei se vai dar certo. mas o que é dar certo, não é mesmo? me sinto tranquila com essa decisão de tentar o mestrado. hoje me sinto madura e preparada pra isso. mesmo que não dê dessa vez, eventualmente vai dar certo. e se der certo, WOW! estarei alguns passinhos mais próxima do meu grande sonho de dar aula.


a jornada importa mais que o destino, afinal.


meu ser está completo de amor e afeto. me sinto amada pelos meus amores e isso me fortalece. meu amor, meu afeto, independe das pessoas. eu sou amor, eu sou luz, e também sou trevas e escuridão. tudo isso faz parte de mim e me enche de orgulho, porque é com esse amor, esse afeto, essas luz trevas e escuridão que eu cheguei onde cheguei. que fiz o melhor que pude com o que fizeram de mim. eu não sou o meu passado, eu não sou uma nota, eu não sou um conceito. eu sou um ser humano multifacetado, amável, amado, incompleto, errante e sempre em busca de melhorias. pra melhorar a vida própria e a vida alheia.


eu sou luz e eu sou escuridão.


e eu não tenho mais medo.


não mais.

sábado, 11 de julho de 2020

whose side are we on?

A depressão e a ansiedade costumam brigar pela atenção completa do meu cérebro há muitos anos. Não sei quem clama com e sem razão pelo trono, mas a batalha é dolorida porque se passa dentro de mim.

A ansiedade me deixa germofóbica, ou qualquer que seja o termo que te dá fobia de germes. Tudo é sujo. Eu encosto em tudo. Portanto, eu também sou suja. Cheia de poeira e sujeira: pele morta, ácaros, bactérias. E eu faço parte disso: sou uma coisa nojenta ambulante e faço parte de um todo sujo, porque eu também sou suja.

A depressão, por outro lado, me deixa hermética. Eu olho as coisas, eu as admiro, então tento tocar. Mas eu nunca encosto. É um esforço tremendo para tocar algo belo e quando toco, nada acontece. A minha composição impede o contato com qualquer superfície. Eu sou repelente. Eu expulso as coisas para longe de mim.

Multiplicados sejam os dias em que eu não estou tão anormal.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

depressão

é como se a sua sombra pudesse me engolir
me arrastar
me arrasar
levar pra fora
me abolir

é um feitiço
que eu desconheço
um vento forte
gélido
e morno
leve, pois ninguém vê
pesado, pois eu carrego
triste e indolente
secando a minha nascente

às vezes, anestesia
mais vezes, covardia
sem sal e amargo
me destrói sem embargo

engole meu eu
furta a minha cor
despedaça o meu coração
transforma tudo em breu
retira o meu valor
e embota a emoção

quem dera a vida fosse eletiva
já que a vida depressiva
é uma mazela
sem tinta e sem cor sobre a tela


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Uma adolescência tardia?


Não é de hoje que eu digo e nem é de hoje que eu tenho certeza de que minha vida é fora de época, fora do timing. Parece que eu tô sempre fora do meu tempo e essa talvez seja a única coisa constante pra mim.

Em todo caso, eu descobri a maconha aos 27 anos. Já tinha experimentado antes, mas a experiência tinha sido nula, sem graça. Hoje é praticamente uma realidade no meu ser humano.

Também comecei a beber tarde. Eu tinha mais de 21 anos quando comecei a, de fato, apreciar a bebida. O primeiro porre talvez tenha vindo ali pelos 22, sinceramente não recordo com exatidão.

Não vejo nada disso como errado. Na realidade, eu acho isso até positivo, porque apenas experimentei as coisas que quis no momento em que me senti realmente preparada pra isso.

Assim como fazer sexo. Minha primeira relação sexual aconteceu somente aos 18 anos, já era maior de idade e sabia exatamente o que eu queria. Apesar de já ter tido um relacionamento desde os 13/14 anos, só transei quando me senti confortável. E foi legal.

Do alto dos meus atuais 27 anos eu me sinto meio extraterrestre se a ideia for me comparar às idades em que outras pessoas fazem essas coisas que citei.

Só aos 27 anos que decidi assistir aos filmes das sagas Crepúsculo e Jogos Vorazes, mais uma vez extemporânea ao que praticamente todas as pessoas que conheço são. Não me arrependo.

Quando lançaram Crepúsculo e aquele show de horrores e ódio virulento que se seguiu, eu achei patético. Não entendia nada e achava horrível. Quanta soberba a minha! Quem era eu pra criticar algo que estava no coração de tantas meninas?

Respondo: ninguém. Absolutamente ninguém.

Hoje percebo que meu amadurecimento pra ver algo como Crepúsculo só veio agora, com 27 anos. Antes eu estava mais próxima desses nerds punheteiros e chatos que reclamam de diversidade racial, sexual e social nos filmes de heróis, que não entendem que toda obra é política, até mesmo quando o assunto não aborda política, a obra está sim assumindo uma posição política - já que não grita com os sofridos, está tomando o partido daqueles que oprimem.

E Jogos Vorazes? Como eu poderia começar a falar sobre essa verdadeira masterpiece? É, sinceramente, uma das melhores coisas que eu já tive o prazer de assistir e ler. É político, é rebelde, é feminista, é anticapitalista, é revolucionário. A Katniss é um ícone - ela é forte, ela é guerreira, ela não se entrega e ela tem plena consciência de que esperam dela uma feminilidade e submissão que ela não está nem um pouquinho disposta a entregar. Ela sabe disso e ela continua. Ela até joga o jogo deles, mas ela faz isso por sobrevivência e porque há algo maior do que ela a ser protegido.

Enfim. O que esse devaneio quer dizer? Quero só dizer que não há atrasos e não há tempo perdido, desde que estejamos vivos. Se estamos vivos, ainda há tempo para fazer as coisas, viver um pouco e curtir. E tá tudo bem.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O dia de hoje ficará eternamente marcado como o dia em que eu recebi a ligação da OAB Cachoeirinha sobre a solenidade de entrega da minha carteira da OAB. E que fique registrado que eu estava completamente chapada, no momento da ligação. Fuck yeah. 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

O fim de uma era?

Ia fazer dois anos de um hiatus não planejado aqui. Por alguma razão, eu lembrei da existência desse blog e decidi postar qualquer coisa. Outro dia me peguei com uma crise existencial estruturada em formato de post e ia escrever aqui, mas acabei ficando apenas em choque, sendo a crise inútil para fins de escrever no blog.

Dois anos atrás eu estava dolorida e triste e queria sumir. Hoje, pouco mudou. Terminei minha pós-graduação, agora só falta apresentar o maldito TCC e serei especialista em Ciências Criminais. Finalmente consegui passar na prova da OAB, isso estava me consumindo havia séculos. Agora é esperar toda a burocracia pra pegar a carteira e finalmente poder procurar emprego.

Em casa, sem trabalhar, há mais de um ano, sinto que estou definhando. Os estudos para o exame da ordem levaram de mim o pouco de saúde mental que ainda restava. Eu sinto que meu corpo está derretendo, escorrendo, caindo, desmoronando. Minha mente não é um local, minha mente não é nada - é só bagunça e dor. A dor é tanta que eu não consigo entender se dói a pele ou se dói a cabeça, ou se dói todo o meu corpo, ou, talvez, eu esteja equivocada e tudo o que acontece comigo é dolorido e não tem cura. Não sei, acho que nunca saberei.

Nos últimos dias a depressão tem piorado e tudo o que penso é em sumir, desaparecer. Eu organizo meus contatos e catalogo minhas mensagens, com a esperança de que quem encontrar minhas redes sociais não se chateie muito, quando eu morrer. Eu arrumo minhas coisas como se eu fosse embora, mas não embora daqui, e sim, embora de mim. Eu organizo tudo pra não deixar trabalho pra ninguém. Tudo o que sinto é que sou um peso. Tudo o que eu queria era sumir. Só me falta coragem pra fazer a coisa certa e apagar a minha existência da face da Terra. Quando foi que me tornei tão covarde?

Eu não sirvo nem pra me matar.






Obs.: o título "o fim de uma era?" corresponde à minha insatisfação pessoal de perceber que me tornei o que eu mais temia - uma depressiva disfuncional. Antes, eu conseguia ter depressão e fazer as coisas. Agora, eu me sinto tão danificada que não consigo sequer levantar da cama. Eu não sirvo pra mais nada. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Doadora de órgãos e tecidos

E essa é a parte da minha carteira de estagiária da OAB que mais me emociona - onde menciona que, SIM, sou doadora de órgãos e tecidos.

Não mais. Nunca mais.

De pé, eu sinto o veneno se acumular na minha corrente sanguínea. A substância tóxica se amontoa na base do meu corpo e pesa, de maneira que toda célula, toda molécula, todo átomo e absolutamente todo o meu ser anseia pelo repouso, pela inércia, pelo conforto da cama. Eu quero deitar e dormir.

Eu quero deitar, dormir e ejetar toda a toxicidade existente na minha pele, nos meus órgãos, no ar que eu respiro. Então, eu finalmente deito. Não é uma grande surpresa, parece que eu já sabia que a sensação do meu corpo ser um invólucro de veneno não ia passar. Mas eu precisava deitar e, uma vez deitada, eu sinto toda aquela substância nociva se espalhando, crescendo, multiplicando, fermentando. Eu sou tóxica. Eu não mereço viver. Toda dor que sinto é um lembrete, um aviso, de que eu estou aqui apenas para o sofrimento, recebê-lo e causá-lo.

E é por isso que eu gostaria de sumir. Desaparecer. Fundir meu corpo às paredes. Cair no esquecimento, aos poucos, porque sei que, por mais nociva que eu seja, ainda assim há pessoas que gostam de mim. E eu não queria causar mais nenhum tipo de sofrimento. Não mais. Nunca mais.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Crise estrutural

Vivemos uma crise estrutural. Não, uma crise. Só crise. É tudo o que consigo ver quando olhos para os lados, para cima, para baixo, para o centro, para dentro. Traz o limão, que o sal da vida e a tequila dos beberrões já entrou!

O frio dos corações é contagiante. Somos todos gelados. Descolados, coloridos, cintilantes, unicórnios saltitantes. Queremos atenção, mas estamos pouco ou nada dispostos a cedê-la para outras pessoas. Só queremos ser atendidos; mas atender ninguém, credo, deusmelivre, "que gente mais carente!". Cutucamos, mas não aceitamos ser cutucados de volta. Apontamos duas mãos cheias para os outros; mas quando minimamente comentam nossos defeitos, choramos, brigamos, não podemos ter falhas!

Recentemente li um texto que me chocou: fazia uma releitura sobre o que é exposto no livro/filme Clube da Luta, fazendo uma observação interessante - de que o tema discutido versa, verdadeiramente, sobre a necessidade de haver um ritual de passagem de menino para homem. E fala assim, no masculino, como se o restante do mundo não precisasse da exata mesma coisa.


O texto defende que mulheres já possuem rituais de passagem - um bem explícito, que é a menstruação. Até faz sentido. Depois tem a festa de debutante, famosos "15 anos", no qual a moça dança com os homens presentes que se voluntariam para a tarefa. Bastante sugestivo, achei ofensivo e realista, nojento por sinal e, por favor, posta mais. 

Menstruei com 12 anos. Ou 13. Não lembro. Foi horrível. Eu lembro de chorar porque eu queria ser criança por mais tempo. Que bobagem... Afinal, fui criança por muito mais tempo, não foi um sangue na vagina uma vez por mês que mudou isso. E hoje, com 25 anos, sinto que cada vez mais faço questão de ser criança, mesmo que isso ofenda algumas pessoas, que esperam alguma maturidade de mim. É ingenuidade pensar que a menstruação me transformou em mulher e mais ingenuidade ainda achar que minha festa de 15 anos tenha significado alguma coisa a respeito de virar mulher - nada disso teve qualquer tipo de efeito nesse sentido.

Bom, eu sou madura. Eu acho. Não sei. Eu também era uma criança particularmente madura, então acho justo ser um adulto particularmente infantil - pra compensar as coisas.

O que esse texto deixou de considerar é que talvez essa necessidade de transformar meninos em homens - essa urgência em fazê-los sair da zona de conforto de "cuidado" para "cuidadores", é uma emergência generalizada. Não se trata de meninos/homens, e eu também estaria sendo simplória por dizer que se trata de meninas/mulheres; eu acho que a crise é muito maior: se trata de crianças/adultos.

Somos todos crianças. Deveríamos ser adultos.

Em algum momento, as pessoas deveriam crescer e enfrentar seus medos. Abrir-se e encarar os outros, como o termo sugere, olhando nos olhos. Vivemos morrendo de medo. Talvez o correto seja: sobrevivemos morrendo de medo, assustados com nossos cérebros, reprimindo nossos instintos e emoções, porque achamos que eles podem nos causar problemas. E podem mesmo. Mas nós já deveríamos ser "adultinhos" o suficiente pra aceitar e lidar com isso.

Vivemos uma crise estrutural.

Não, uma crise. Só crise. É tudo o que enxergo ultimamente.

sábado, 3 de junho de 2017

I'm begging you:
Please, do not fall in love.

Not yesterday
Not today
Not tomorrow

Please

I
am
begging
you

...
Or, at least...
This time, please,
you could just be
bulletproof

terça-feira, 9 de maio de 2017

"Motivo"

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
mais nada.

MEIRELES, Cecília. Motivo. In: Para gostar de ler. 1.ed. São Paulo, Ática, 1980, v.6 p.48.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Policiamento corporal e a espuma dos dias

Eu estava no quarto hoje, montando novamente meu mural de fotos, quando minha mãe passou por mim e disse que iria tomar banho logo porque precisava se depilar. Respondi, no automático “ué, não se depila então”, e ela devolveu “não posso, amanhã tenho academia”. A partir disso meu cérebro entrou em funcionamento, tirei do piloto automático e questionei “e daí?”. Minha mãe respondeu que se sentia desconfortável com pelos embaixo das axilas quando estava em público. Perguntei se havia alguém na academia que tivesse, alguma vez, reparado e comentado de axilas com pelos, ela disse que não, e eu emendei “é, pior do que existir alguém que repara e comenta de pelos em axilas, é manter esse tipo de pessoa por perto”.

Isso me irrita. Me irrita profundamente. Me irrita de uma maneira desigual, que eu inclusive deslizo e chego a bagunçar com a tal da ênclise – acho que faltei essa aula dos pronomes oblíquos, não lembro bem. Existe uma constante vigilância sobre os corpos das pessoas, e eu até ia tentar não entrar na questão de gênero, mas é praticamente impossível falar em POLICIAMENTO CORPORAL sem dizer o quanto isso afeta, principalmente, nós, mulheres. Eu me questiono se esse “desconforto” é algo DELA, que diz respeito somente à pessoa, ou se é algo que foi INCUTIDO ao longo de tantos anos, estampado em tantas revistas, ilustrado em tantos programas na TV, passado adiante em conversas cotidianas.

Nos encontramos em um momento em que é natural câmeras e atualizações de status o tempo inteiro, tudo é gravado, copiado, compartilhado. Com a estupidez humana não seria diferente: ela se propaga quase na velocidade da luz. Vivemos um mundo em que é normal olhar o corpo do outro com o olho que tudo julga – pelos, espinhas, cicatrizes, estrias, manchas, sinais, cabelos, estatura, peso, idade; mais um pouco e chegaremos nos apps que fazem check-list físico da outra pessoa, com os defeitos que “escolhemos aceitar”, como se fosse preocupação nossa a maneira como o outro rege o próprio corpo. Eu me questiono se a vida é realmente a respeito da nossa aparência, de como parecemos por fora.

Meu pai sempre me falava desde que eu era criança: “tu não é as tuas roupas, tu não é os teus brinquedos, tu não é o material escolar caro que o pai não pôde pagar”.

Nunca esqueci essas palavras do meu pai. Certa vez decidi fazer uma tatuagem; na verdade, foram duas, logo de cara. Meu pai detestou. Ficamos uma semana sem falar. Depois de um tempo, ele admitiu que eram tatuagens bonitas, embora, na ocasião, tenha expressado o receio dele – algo como “o ambiente em que tu vai trabalhar futuramente ainda não compreende que um desenho na tua pele não muda a pessoa que tu é”. Pois é, pai, eu sei disso. E tu também percebeu que um desenho na minha pele não mudou a pessoa que eu sou, não diminuiu meu intelecto e não modificou o meu caráter, nem nada parecido, da mesma forma que não ter ganho as roupas/brinquedos/materiais escolares que eu queria, simplesmente não foram o suficiente pra alterar qualquer traço da minha personalidade, quando criança. Fazer essas tatuagens talvez tenha alterado levemente a minha autoestima, já que eu fiz desenhos que me lembram de coisas boas que passei ou que passaram pela minha vida. Esses valores nortearam a minha vida de uma maneira tão pungente que, quando cresci, não pude deixar de responder para o meu pai: “Se as pessoas do meu futuro trabalho vão me julgar pelas tatuagens, cor de cabelo ou estilo de roupas, quiçá pelo meu peso, estatura ou cor dos olhos, então eu sinceramente não quero trabalhar com essa gente”.

Sei que isso que estou dizendo se trata de um privilégio IMENSO. Sei que muitas pessoas se sujeitam, ou melhor, não veem alternativa, e são obrigadas a trabalhar, a estudar, a viver em condições extremamente insalubres, ouvindo desrespeitos e monstruosidades pelo simples fato de serem diferentes. O diferente é visto como perigoso.


O que eu quero questionar aqui é como a gente se enxerga. SIM, tem muita gente que usa maquiagem, que alisa cabelo, que faz dieta, tudo em função de si mesmo, e isso é muito legal. A minha problematização, ou melhor, a minha ETERNA TRETA™ é com aquelas decisões que tomamos e que não são inteiramente coisa da nossa cabeça. “Tô emagrecendo porque eu quero”, mas no fundo tá se achando um lixo por não ter um corpo esbelto como a atriz tal. “Tô me maquiando porque eu adoro”, mas na verdade detesta a própria pele, por ter lido nas revistas que olheiras não são sexy. “Tô me depilando porque eu gosto”, mas na verdade tá com medo do que o boy vai dizer/pensar/falar se tirar tua roupa. “Tô alisando o cabelo porque é mais fácil cuidar dele assim”, mas na verdade tá é querendo ficar liso pra não ter que lidar com o preconceito das pessoas que olham torto pro teu black power ou pros teus cachos. Entendam: o problema não é o processo (maquiagem, dieta, depilação, mudança capilar…); o problema é a MOTIVAÇÃO. Por gentileza: não usem pessoas que fazem isso porque QUEREM, para invisibilizar pessoas que o fazem POR PRESSÃO. Seja pressão da mídia, dos amigos, da família, d@ parceir@.

Como resolver isso? Eu sei lá. SINCERAMENTE, EU SEI LÁ.

Não posso dizer para as pessoas simplesmente: “SE DESFAÇAM DE GENTE QUE PENSA ISSO, VAI SER MELHOR PRA TODO MUNDO”! E ia mesmo, tá ligado? Mas não. Não acho legal, e nem é da minha índole, ir colocando as pessoas “no lixo”, como se eu pudesse ali na esquina encontrar gente nova com a cabeça mais aberta – não, isso não. Eu acho que algumas pessoas valem o nosso esforço, valem o tempo que a gente vai empregar contando pra elas que é natural ser quem somos, sermos humanos, imperfeitos, com nossas cicatrizes físicas e emocionais. Como diria Fernando Pessoa, no poema Mar Português, “Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”.

domingo, 9 de abril de 2017

I am glad to be back

Às vezes a gente passa tanto tempo com uma sensação ruim… Não é culpa nossa, sabe. Existem paradas químicas rolando no cérebro da gente, coisa pesada que nosso próprio organismo produz, ou não produz como deveria, e que deixa a gente “meio” pra baixo. Essas sensações se alongam pelos anos, a gente vai empurrando da maneira que dá, como pode, e nem sempre essa é a melhor maneira de encarar isso, mas é como a gente consegue. Depois de tantos anos, livre desses padrões inalcançáveis que nos sufocam, sentir algo genuíno, puro…, parece que ser feliz sem uma razão específica é algo como um milagre, como uma bênção. Bom, eu não acredito – nem em bênçãos e nem em milagres, acho que o que ainda não conseguimos explicar não é simplesmente inexplicável, não, eu acho que a gente ainda não encontrou os motivos. As razões. As explicações.


Nós tentamos, de todas as maneiras ao nosso alcance, ficar e estar bem. Às vezes, não dá. Às vezes a avalanche interminável de cobranças por emprego/estudos/status social/relacionamento/bens móveis e imóveis e tudo o mais nos engole. Nos engole e não é possível nem ouvir nossos próprios pensamentos. Eu já critiquei jovens nem tão jovens assim que escutam músicas tristes, mas sabe, de certa forma eles estavam certos. A tristeza não é, isoladamente, ruim. Porque no meio dela, as coisas boas parecem brilhar com uma luminosidade diferente. A luz, no fim do túnel, te cega; mas, ao mesmo tempo, te dá aquela vontade louca de se arrastar, de rastejar, de ir aos trancos, de desatar a correr até alcançá-la. Seja qual for essa luz. Seja qual for esse fim. Seja qual for esse túnel. Não sei. Só sei que é bom estar de volta. “De volta à normalidade?”. Não, de volta à loucura. Senti saudades de ser feliz sem motivos!

sexta-feira, 7 de abril de 2017

(Do not) Hidden Your Tears

Às vezes a gente pensa em se calar, em esconder, em evitar. Seja qual for o tipo de relação, qual o tipo de situação e qual o tipo de emoção, sempre passa pela cabeça: “e aí, falo ou não falo?”. Sei lá, gente. A vida anda tão complicada. Em algum momento as coisas começaram a desandar, e já faz tanto tempo que esse caldo entornou, que não faz o menor sentido descobrir a origem – a ideia mais madura é, com certeza, seguir em frente e tentar fazer o menor dano possível. Eu não tenho medo e eu quase não tenho um pingo de vergonha na minha cara. Talvez isso seja reflexo dos muitos anos da infância e adolescência que eu passei, basicamente, escondida atrás de livros, óculos e cabelo, muito cabelo. Mas não, eu acho que não, em especial porque eu não me arrependo dos anos de reclusão. Acho que eu simplesmente cansei de me esconder, cansei de ser “só a garota atrás da obra literária”, talvez eu queira ser mais alguma outra coisa além disso. O que? Eu não sei. Não ainda. E eu também não tô com pressa de descobrir. Não me sinto acuada, não me sinto envergonhada; talvez pela primeira vez, em muitos anos. Acho que, provavelmente ao mesmo tempo em que tudo começou a desmoronar, eu pensei: “pô, se tamo caindo, o que custa aproveitar o vento veloz passando pelo rosto?!”.



E daí eu me jogo. Quebro um pouco a cara, às vezes. Às vezes tenho vontade de explicar pras pessoas que um diálogo é só um diálogo, não são promessas. Um beijo, um abraço, um aperto de mão, um cinema, um café, um gole da tua cerveja: nada disso é promessa, tudo é extremamente vulnerável e passageiro. Uma certeza: a morte. Uma possibilidade: viver. Uma alternativa a viver: VIVER PRA CARALHO. Se uma coisa aprendi, depois de tanto quebrar a cara, é que tudo é impermanente – inclusive essa sensação de estar com a cara e o coração quebrados. Let’s have some fun! (05.04.17)

quinta-feira, 16 de março de 2017

Please, die

Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently, menções à loucura que pessoas fazem em nome da religião, um comentário espertinho de Richard Dawkins sobre o livro... E a triste realidade dolorida de que Douglas Adams faleceu antes dos 50 anos, em 2001, quando eu própria estava prestes a completar meus dez anos de idade. A vida é tão injusta.

Ansiedade toma conta de mim e pego um daqueles cigarros mau-cheirosos da semana passada. Coloco uma touca no cabelo, pego isqueiro e incenso, fecho a porta ao sair. Vou pra janela e acendo os dois - cigarro e incenso, e percebo que a ansiedade deveria estar se apagando, mas não é esse o rumo que ela toma. Tenho 25 anos e esse deve ser o sétimo ou oitavo cigarro que eu fumo, e continua sendo uma droga. Não que eu esteja insistindo - não estou. Definitivamente, um vício em nicotina é algo de que eu não preciso agora. Mas eu precisava pensar e queria solidão. Quer dizer, mais um pouco de solidão, afinal eu me desliguei das redes sociais por dois dias consecutivos. Pretendo voltar amanhã, porque acredito que há alguns amigos me esperando. Eu espero ter causado a eles menos mal do que eu normalmente causo a mim mesma. Essa é minha única esperança no momento.

No andar debaixo, eu escuto ser ditado o que pode ser um dos dez mandamentos: "não matarás", pela voz enfadonha de um parente trazido à minha correlação por força de lei. Eu já detesto os consanguíneos, que dirá os parentes "legais". Posso obedecer ao que um velhote louco escreveu numas pedras há alguns milênios atrás, sendo que ele ouviu essa ladainha toda de outro velhote maluco sentado acima das nuvens e, ok, eu não matarei; mas você pode, por favor, morrer?

Eu poderia parar de agir feito uma idiota e, daí, parar de reclamar sobre como eu sou, de fato, idiota, mas no momento eu só quero paz. Só um pouco de silêncio, a casa vazia e mais alguns cigarros. Talvez uma taça de vinho tinto seco. Eu me sinto doente, e só queria que essa barulheira parasse. Tomei um banho com muitos perfumes e acendi mais incensos pela casa, não pelo cheiro do cigarro, mas porque eu sinto um cheiro estranho de... de morte. Basicamente, tenho sentido um cheiro esquisito de morte. Duvido que esses remédios estejam funcionando - tenho vontade de tomar todos de uma vez só para ver o que acontece.

terça-feira, 7 de março de 2017

O Direito imita a vida

Sabe aquele ditado? “A vida imita a arte”, ou “a arte imita a vida”? Eu nunca lembro ao certo, talvez eu simplesmente não saiba o ditado original e adapte ele conforme a necessidade. Mas hoje me peguei pensando que o Direito imita à vida, ou que a vida imita o Direito, alguma coisa desse gênero.

Antes de prosseguir, já alerto que não sou nenhuma exímia conhecedora dos institutos do processo civil e, de antemão, já peço desculpas pelos deslizes que porventura cometa; sintam-se à vontade para apontar correções. Ademais, saliento que não é um texto de cunho acadêmico – muito pelo contrário, faz parte de alguns devaneios pessoais e também é fruto da minha paixão pelas leis, cuja interpretação e analogias eu procuro em tudo o que faço, vejo, penso.

Existe um “instituto” no ramo do Direito Processual Civil que se chama “contestação por negativa geral”. A contestação, conforme o próprio nome indica, é a faculdade do réu de contestar, responder, rebater as alegações articuladas pelo autor, formuladas pela ocasião do pedido inicial. Essa resposta, via de regra, deve ser realizada ponto a ponto, sendo que os fatos não contestados, também via de regra, serão assumidos como verdadeiros. Quando o réu, por motivo ou outro, não comparece processualmente para contestar a ação, existe a possibilidade de o juiz nomear um curador especial para realizar tal labor. O curador, por sua vez, recebe a indicação de nomeação e pode aceitá-la, ou não, conforme o caso. É muito comum que o curador especial seja na pessoa de um defensor público, e a sua função, nos casos mais recorrentes, é realizar a dita “contestação por negativa geral”. O curador especial não teve acesso ao réu, já que o réu sequer compareceu no processo para se manifestar, e a função do curador é só contestar de forma genérica os fatos articulados pela parte autora. O curador, que obviamente não é onisciente, onipotente e onipresente, não tem como saber se os fatos ocorreram conforme narra o autor, então a ele é facultado simplesmente negar tudo que foi dito, de maneira a tornar os fatos controversos. Você consegue compreender aqui a importância do curador? Ele comparece em nome do réu, já que ele próprio não esteve presente, só para cumprir um papel, o papel de tornar as coisas controversas. Só para deixar as coisas controvertidas. Eu vejo as questões jurídicas como questões naturais. Pense numa situação em que uma pessoa veio falar contigo: ela deu o primeiro passo, demandou um determinado assunto, ou seja, ela é o autor, ela está requerendo alguma coisa. E você, bom, você é o réu, e cabe a ti contestar, responder, e inclusive também concordar com o que está sendo dito. A vida é assim, somos autores e réus o tempo todo, demandamos e contestamos coisas, às vezes concordamos, às vezes discordamos e, como é de se esperar, relacionamentos saudáveis são pautados nesses embates, nessas discussões, em que se permite demandas e faculta à parte “adversa” (ao outro e, portanto, o “não eu”) a resposta. O que eu quero dizer com essa viagem toda? É simples. Não seja um curador especial. Não conteste por negativa geral. Não contrarie uma pessoa só para tornar controversos os fatos que ela apresentou. Isso não é produtivo. Eu sei, o processo civil aceita esse troço, e se você parar pra pensar nós também já “contestamos por negativa geral”, só pelo mero prazer de causar a discordância, mas, sinceramente, é isso que a gente quer? Nós queremos mesmo viver relações pautadas pela discordância pura e só, onde não existe um contraponto, fato por fato? Não, eu ouso dizer que isso não é o ideal. Eu ouso responder em nome de mais pessoas, além de mim mesma. Eu ouso dizer que não é uma boa ideia que se prolonguem situações e relações orientadas pela discussão contestada por negativa geral. Se você se importa com uma pessoa, escute-a: receba suas demandas, analise os fatos narrados. E aí, você pode contestar, argumentar e, até mesmo, produzir provas. Eu tenho certeza de que esse diálogo vai nos trazer experiências muito mais intensas e incríveis.

Sabe o que é mais bacana no processo civil? Além da contestação, ao réu também é facultado o direito de apresentar um negócio chamado reconvenção. Pra elucidar: o autor (original) tem uma “treta” com o réu (original). Só que, assim que o autor (original) apresenta sua demanda com o réu (original), esse réu (original) para tudo (ninguém sai, meu óculos) e fala que também tem pendências com esse autor (original). Nisso, o réu (original) se torna autor na reconvenção, momento em que apresenta as próprias demandas junto ao autor (original). “Mas meu deus, como é que o Direito permite essa putaria?!”, você deve estar se questionando. Bom, como outras quinhentas outras situações distintas que acontecem no campo das leis e todo mundo deliberadamente assume que se trata de putarias, mas que na verdade não são putarias, eu te digo: não, a reconvenção não é uma putaria. Esse “instituto” do processo civil visa atender princípios presentes na Constituição que rege nosso país. No caso em apreço, a possibilidade de o réu (original) reconvir prestigia o princípio da razoável duração do processo, segundo o qual o Estado não deve simplesmente “reger os processos e deu” – não, o Estado deve prestar a jurisdição e fazer isso da maneira mais efetiva, tempestiva, eficiente e adequada possível. Isso quer dizer que a reconvenção existe pra que o réu (original) se transforme em autor para, assim, poder demandar o autor (original) no mesmo processo, durante o mesmo diálogo, de maneira que as ações durem somente o tempo razoável. Vamos ser ainda mais minimalistas: vamos discutir todos os podres aqui, agora; não vamos deixar nada pra depois, nada pendente, sejamos eficientes.

Ou seja, depois dessa ladainha toda, o que eu quero dizer é: tudo bem você não ser o autor original da ação – não faz mal, a vida é corrida e todo mundo tá meio perdido mesmo. Mas participe do diálogo, entre no processo, faça parte dessa dança. Se você tiver um problema, demande; e se for demandar, dê possibilidade de resposta. Se você for demandado, escute, preste atenção e debata os fatos – não conteste por negativa geral.


Sendo autor ou réu na própria vida, valorize suas AÇÕES e as AÇÕES dos outros.

sábado, 4 de março de 2017

No, I don't have to apologize


Eu tenho uma doença. Não uma, várias. Duas delas são doenças de ordem mental. Eu sinto medo o tempo todo, sinto dor a todo instante, sinto como se o mundo estivesse pesando sobre meus ombros e parece que está tudo sempre pronto para desabar. Meu corpo dói, minha pele parece que está esticada ou grande demais sobre o meu corpo, e existe uma sensação constante de que eu vou começar a sufocar, mesmo que não haja água próximo. Eu me sinto só, eu me sinto triste, eu me sinto abandonada e infeliz. Também me sinto culpada por todos esses sentimentos porque, afinal de contas, eu tenho amigos e família, pessoas que verdadeiramente me amam e querem o meu bem. Me entristece ser e estar assim, mas não sei mais o que fazer a respeito. Todos os dias eu acordo e me sinto triste por ter acordado e continuar viva. O maior pesar que sinto é a vida, que continua.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

São só palavras, texto, ensaio e cena

É ligeiramente cômico, traumático e absolutamente desesperador a maneira como os ciclos temporais se repetem. Não, não estou ficando louca - ao menos, não há uma loucura clinicamente diagnosticada. Por enquanto.

O caso é que dia 02 de fevereiro de 2017 foi um dos piores dias da minha vida, e tudo o que eu fiz foi ficar sentada assistindo alguém que eu amo ir embora. Eu me subestimo. Eu subestimo a minha capacidade de encantar as pessoas e não aceito direito, ou não consigo entender de maneira eficaz, o fato de elas ficarem na minha vida por conta própria. O que eu sei é que, no momento que essa pessoa estava indo embora, tudo o que eu queria é que ela não fosse. Mas eu não podia pedir por isso, não depois de dois anos de convivência. Se em dois anos eu não consegui demonstrar a importância dela na minha vida, o que eu poderia dizer ontem que iria mudar alguma coisa?

De fato, alguma palavra seria capaz de mudar qualquer coisa?

Eu não quero que as pessoas fiquem comigo por pena ou por dever, por senso moral, por senso comum ou, ainda, por convencimento. Eu não quero, e eu absolutamente não preciso, dessa etapa na minha vida pública ou privada. Não quero ter de passar pelo vexame de ter de convencer alguém a ficar comigo, a conviver comigo e tudo o mais.


E agora fica o vazio, as lembranças. A saudade. A saudade que corrói e machuca, e eu só queria mais um abraço, mais um beijo, mais um olhar, mais um carinho, mais um minuto, mais uma hora, mais um dia, mais um mês, mais um ano, mais uma década, mais um século... Mais uma chance. Só isso. Eu sei que não é "só isso", porque pra mim seria grande coisa... E eu não posso pedir e, tampouco, exigir o comprometimento das pessoas comigo, com meus sentimentos, com os meus planos.

Tudo parece cinza e borrado, como se eu tivesse dentro de um vidro, uma redoma, presa, observando ou, quem sabe, só existindo. Isolada. Fria. Oca. Vazia. Asséptica. Antitérmica. Um rasgo invisível que divide o meu ser em dois pedaços. Ou mais, eu não saberia dizer.

Existem pessoas que nos abraçam tão forte que o nosso coração partido se une novamente. E existem pessoas que simplesmente não podem ser - e jamais serão - substituíveis, substituídas.